Tour dos Cânions - Parte 1 - A Última Subida Antes do Vômito (e Outras Histórias)




Texto e fotos: Jeander Ribeiro

Final de Junho de 2022, durante um hiato da jornada de trabalho cansativa, decidi aproveitar o frio numa das regiões mais emblemáticas do Brasil, os Cânions na divisa entre Rio Grande do Sul e Santa Catarina. Essa região, famosa por suas formações geológicas impressionantes, é um ponto de conexão entre a natureza bruta e o espírito de aventura que sempre me inspirou. Nunca havia passado por lá, só ouvia falar através de amigos que já tinham passeado pela região.


Havia acabado de vender minha Gary Fisher, uma bici que tinha um grande apreço, e decidi pegar uma MTB dessas mais modernas, daquelas com suspensão com trava, uma coroa na frente e coisa e tal. Depois de muita pesquisa encontrei uma bici em Criciúma, parecia em ótimo estado, vendedor foi um cara bacana comigo e decidi de maneira meio louca buscar ela e já partir para uma aventura, um teste. Saí da terra dos cara de bunda (Curitiba) de ônibus rumo a Criciúma, tudo devidamente empacotado e pronto para uma boa gambiarra na nova bici. Cheguei em Criciúma por volta das 6h da manhã e o vendedor já estava me esperando, fui até a casa dele, fiz pequenos ajustes na bici, prendi minhas gambiarras e parti sentido cidade de Praia Grande, que por sinal não é uma praia, mas que segundo os moradores era uma região de espraiados e parecia uma praia. 

A neblina tomou conta da estrada, exigindo atenção redobrada para quem pedala no acostamento. A cada pedalada, a vulnerabilidade de dividir a pista com carros me fazia refletir sobre as condições desiguais que ciclistas enfrentam em rodovias brasileiras. Já passei por sustos suficientes para saber que não posso dar chance ao azar, proposital ou não. Ao longe avistei uma gruta e decidi ver o que era, uma capela bem brasileira, daquelas que tem Nossa Senhora de Aparecida, Iemanjá, Cosme e Damião, Santa Barbara. A luz fraca das velas queimando iluminava nomes escritos em papéis e oferendas simples. A devoção ali era palpável, e senti uma conexão profunda com a fé daqueles que, como eu, buscam proteção antes de uma jornada desafiadora. Parei, fiz meus pedidos de proteção para esta aventura e segui viagem.



Depois de rodar vários quilômetros no acostamento da BR-101 em direção ao Rio Grande do Sul, decidi parar para preparar um café. O cheiro do pó fresco invadiu o ar frio da manhã, e o ritual de fazer o café ali, na beira da estrada, trouxe um momento de calma em meio ao caos. Enquanto olhava os mapas, resolvi seguir por um caminho alternativo que me permitisse ver as imensas paredes dos cânions ao longe. Região rica em casas bonitas e pés de Pitaya, presenciei até uma casa sendo levada inteira por um caminhão, um gigante Ìgbín à Diesel. Segui por essa estradinha que virou uma estrada de chão com muitas plantações e pessoas trabalhando com suas máquinas simples e improvisadas. Pedalei mais alguns Km por essa estrada e cheguei a estrada principal, já estava em São João do Sul, a última cidade antes de Praia Grande.



Faltava pouco até Praia Grande e ali começaria a subir sentido Cambará do Sul. Eu não tinha onde dormir, já estava chegando o final da tarde e aquela preocupação batia. Decidi ao chegar em Praia Grande e procurar um repositor eletrolítico, já estava com cãibras e já havia passado os 100Km rodados. Achei uma grande bicicletaria, comprei os repositores e já mandei brasa em um. Ainda era dia e decidi seguir serra acima para achar um lugar para dormir, iniciei a subida ao mesmo tempo que a noite começou a esticar seu longo véu, uma região de mata fechada, estrada de chão com grandes pedras soltas e muita inclinação somadas as constantes cãibras dificultavam minha subida.



As próximas horas foram de um empurra e pedala cansativo, no breu da noite, munido das minhas gambiarras luminosas a fome começou a roncar, eu petisquei o dia todo e só queria uma coisa boa para comer. Os olhos brilhantes dos macacos refletiam nas árvores ao redor, enquanto algumas casas e pousadas ficavam para trás. Eu já sentia o corpo pesado e a mente confusa, mas a beleza e o cheiro úmido da mata me mantinham persistente. Decidi comer uma barra proteica que tinha trazido da bicicletaria. O gosto doce de chocolate e caramelo não caiu bem, e logo veio o mal-estar sendo convidada a se retirar de maneira imediata, após algumas gorfadas decidi que deveria encontrar um local para dormir.


Empurrando a bici por mais algumas curvas, avistei uma área espaçosa que serviria para armar a barraca e dormir. Olhei em volta e vi que havia uma área mais baixa, escondida, então armei minha barraca, desmontei parte da bici para colocar dentro do avancê, comi alguns pães com pasta de amendoim e melado que havia levado e apaguei. Foram 116km com 1200m de ganho de elevação, sendo que os últimos 10km com cerca de 750m de subidas acumuladas, algo intenso para quem não conhecia a bicicleta e estava há muito tempo sem pedalar longos trechos. Decidi fazer essa viagem sem GPS ou ciclocomputador (por motivos de não ter dinheiro), apenas confiando no instinto e na observação do caminho. Salvei o trajeto no Strava para registro, mas a falta de tecnologia trouxe um senso de liberdade que, às vezes, a precisão digital nos tira. Era só eu, a bicicleta, as informações dos moradores e a estrada.




Em breve parte 2...



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