Tour dos Cânios - Parte 3 - Barro, Lusco-Fusco e Luvas de Pedreiro



Texto e fotos: Jeander Ribeiro

Se você viu a Parte 2 da aventura e viu meu vídeo, percebeu que eu estava delirando sobre chegar a 210 km de onde estava no mesmo dia... estava cansado e, mesmo com minhas refeições hipercalóricas, ainda não havia reposto o que meu corpo pedia, que era descanso, no caso.


Dormi cedo e decidi ficar para o café da manhã - frutas, ovos e pães me ajudariam a enfrentar o dia que ia nascer. Acordei e olhei pela janela, estava chuviscando e com cara de que havia chovido durante a noite, a janela estava toda suada e mal dava para ver lá fora, a paisagem anunciava que o dia estava frio, fazia 6 graus. Arrumei minhas coisas e fui tomar café. Depois de encher a pança, terminei de empacotar a bici e decidi pegar a estrada. O clima frio deixou os moradores da pequena cidade reclusos, havia pouco movimento de pessoas e carros.

Deixei o hotel com rumo a São José dos Ausentes, o asfalto era um deleite, liso e amigável, seguia ladeira abaixo, o frio e a garoa gelavam meu rosto, mas principalmente as mãos e a memória de que deixei minha luva no caminho me deixava incomodado. Parei em uma mercearia e fui atrás de algo que pudesse usar nas mãos e garantir que elas funcionassem até o fim da viagem, acabei comprando um par de luva de pedreiro, aquelas que tem uma camada de borracha na palma, e as usei em mãos trocadas para a borracha proteger um pouco do vento. Deixar a luva para trás parecera fácil, mas agora, com os dedos dormentes, entendi: algumas escolhas só doem depois. As luvas de pedreiro eram meu remendo improvisado para seguir em frente.

Após grandes descidas, cheguei em um rio, ele era grande e minha preocupação também, dali para frente o que via eram apenas subidas, mas mal sabia o que me esperava. Comecei a subir pelo asfalto e logo adiante ele acabou e o que se abriu foi uma estrada em manutenção, muitos caminhões e muito barro - que mais parecia uma argamassa molhada e pegajosa. Nesse trajeto, não rendia o pedalar e logo a roda estava travada, então eu pegava algo e raspava a lama, batia um pouco a bicicleta, montava e logo à frente a mesma coisa se repetia. Segui como Sísifo nessa ladainha até próximo das 13h onde parei para comer, esquentei água e fiz minhas poções, não poderia deixar meu corpo ficar sem combustível novamente.






Retornei para a estrada, úmida, bem batida, mas com muitas pedras grandes. Havia momentos em que precisava destravar a suspensão para relaxar os punhos um pouco, mas a bunda já estava calejada e dolorida (lá ele hahahah). Subidas e mais subidas, cheguei à placa que indicava a divisa de Cambará e São José dos Ausentes, uma ponte de madeira, um rio bonito com muitas pedras e Araucárias em suas margens - uma paisagem linda, o sol deu as caras nesse momento como uma iluminação divina, mais adiante em alguns km, uma bifurcação, algumas casas e vi uma grande área que parecia ser uma madeireira, segui por esse lado e pedi informação para um rapaz que aparentemente queria se esconder de mim. Timidamente, ele disse que tinha alguns km ainda até a cidade.





Continuei a subir, minhas pernas ja estavam pesando e o barro que se acumulara na bicicleta e principalmente nos pedais garantiram um festival de tombos parados, a vontade de desclipar e não conseguir e cair tombos engraçados tiraram o peso da preocupação de não chegar, eu ri sozinho por um bom tempo. Nesse pedaço, andei vários km sem avistar nenhuma pessoa, apenas florestas, plantações de Pinus e silêncios intermináveis que traziam à tona pensamentos antigos, ações em momentos delicados, frases que me falaram e que, de algum modo, eu havia guardado alfinetado no coração, questionamentos mil e pouquíssimas resoluções nos ajudam a digerir coisas adormecidas.



Entre devaneios e cansaço, percebi que começavam a passar alguns carros e um deles era um táxi, isso me trazia o conforto de que estava chegando em algum lugar, já estava preocupado, pois o céu já estava se cobrindo de estrelas. Em uma das subidas, avistei um senhor vestido com um grande poncho, estava muito frio, e junto dele alguns cachorros. Ele estava mais acima de mim, sob e o céu limpo com algumas estrelas do início da noite. O lusco-fusco alaranjado e a silhueta deste senhor de poncho e chapéu traziam uma imagem tão bonita que não pude registrar. Tem coisas que ficam apenas na memória e às vezes acho que ganham mais valor pelos olhos apenas de quem vivenciou.



Do alto, avistei casas e luzes na rua que indicavam que havia chegado, precisava beber algo quente com urgência. Fui chegando na cidade e não via nada além de casas simples, na grande maioria em madeira, foi quando cheguei em uma principal e vi algo que parecia uma mercearia. Entrei no ambiente e não vi ninguém, quando um senhor perguntou o que eu precisava. Estavam ele e outra senhora, mas atrás da porta de entrada vi uma lareira que queimava, ele disse que não tinha nada para comer nem café, que era apenas uma mercearia e me informou que mais adiante teria um local. Fui até lá e pedi um lanche e um café com leite bem quente, ganhei até um "chorinho" de café quando disse o que havia feito nos dias anteriores. É engraçado como as pessoas encaram algumas coisas, me perguntando se era promessa ou algo do tipo enquanto eu estava feliz em estar comigo por algum tempo.

Era perto das 19h e o relógio da praça indicava 3 graus, a sensação era bem menos do que esta temperatura, ou talvez o cansaço falava mais alto. Não havia lugares para acampar, então decidi me hospedar em outro hotel (a gente se acostuma com a praticidade). Cheguei no hotel que acho que era o único da cidade, ficava ao lado de um posto, me atenderam muito bem e deixaram minha bicicleta entrar no quarto, mesmo suja. Desembalei a bici com cuidado para não sujar demais o local e tomei um banho quente, pois o corpo ja doía do frio. Foram 46km bem pedalados.



Pensava em seguir rumo a Urubici e talvez descer pela Serra do Corvo Branco, mas aquele ano (2022) tinha sido um outono de muita chuva, a defesa civil avisava que a serra estava fechada. Minha companheira que estava em casa me disse que iríamos receber visita, eram meus últimos dias de férias no trabalho, então decidi que estava na hora de seguir para casa, iria até Criciúma novamente, desceria a Serra da Rocinha rumo a Timbé do Sul, indo até a BR-101 novamente e seguiria rumo a Criciúma. Havia uma viagem de volta no dia seguinte na parte da noite, agora era essa minha missão, não era a aventura épica que eu planejava, mas era o correto naquele momento.



Comentários

Postagens mais visitadas