Obstáculos da mobilidade

 

Maio de 2021, ainda estávamos vivendo a pandemia. Eu trabalhava a cerca de 25 km de onde morava e, para evitar o uso excessivo de ônibus (já que precisava pegar quatro para chegar ao trabalho), passei a usar a bicicleta com frequência. Era uma bici simples, no melhor estilo MTB dos anos 90, que me acompanhava todos os dias naquela rotina.

Como em muitos dos binários feitos em Curitiba, as ruas são majoritariamente desenhadas para os carros. O espaço para pedestres era mínimo, e para outras formas de mobilidade, inexistente. Isso torna cada ida e volta um verdadeiro desafio.

Em um desses dias, voltando de Araucária em direção ao bairro Portão, entrei na parte do binário da Av. João Bettega. A via no sentido Portão é apertada, sem espaço para disputar com os carros, e nem mesmo uma calçada decente existe. Na mão contrária, há os restos de uma ciclovia dos anos 90, e foi por ali que resolvi seguir. Logo na primeira quadra, avistei um posto de gasolina e um carro que saía de lá. O motorista olhava apenas no sentido da via, contrário ao meu, e não se preocupou em verificar se havia pedestres ou ciclistas na calçada. Avançou sem olhar.

Eu tentei recuar, mas não houve tempo. A ponta da roda dianteira da bicicleta foi atingida, me derrubando e me prendendo à bici. Enquanto eu gritava para que o motorista parasse, ele continuava avançando em diagonal, esmagando cada vez mais a bicicleta. Só parou quando consegui chamar sua atenção com tapas na lateral do carro.

Ele parecia levemente alcoolizado e justificou dizendo que estava olhando os carros e por isso não me viu, já que eu estava na contramão. Sem condições de continuar pedalando, tive que chamar um Uber, desmontar a bicicleta e ir para casa curtir minhas dores. O motorista, pelo menos, ajudou a pagar uma nova roda. Por sorte, encontrei a peça em Porto Alegre, graças a um camarada que tinha a mesma folha do aro da minha bike anos 90.

Essa experiência me deixou pensativo e revoltado. Evidenciou algo que já sabia, os desafios de se locomover de bicicleta em uma cidade que carece de projetos urbanísticos que suportem todas as formas de mobilidade, de obras que contemplem as calçadas e dinâmicas de transporte inclusivas.

E você, já passou por alguma situação como esta, compartilha aí?



Jeander Ribeiro

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