Tour dos Cânions - Parte 2 - Café, Poeira e Microcosmos




Visual dos Cânios Índios Coroados


Texto e fotos: Jeander Ribeiro

Acordei babado e assado entre os barulhos da estrada – carros subindo a serra, provavelmente turistas a caminho dos voos de balão. Um pouco acima da minha barraca, uma bica d’água. Enchi a panela, acendi o fogareiro e, enquanto a água para o café fervia, abri um dos meus pacotes individuais de comida (uma invenção desesperada de aveia, hipercalórico e leite em pó que vou detalhar num post futuro).




Pança cheia, corpo dolorido, encarei a subida. Dessa vez, nem fingi heroísmo: empurrei a bike como um condenado, parando a cada curva para fotografar o vale que se abria abaixo. Em uma dessas pausas, perdi uma luva sem perceber – só descobri quando uma caravana de 4x4 passou e um dos motoristas gritou: ‘Óia a luva lá atrás!’. Não voltei. Algumas coisas a gente deixa pra trás mesmo.

Rastros do que não sobreviveu à estrada

O topo da serra chegou só depois das 11h. O céu azul contrastava com o vento que ainda cortava, mas agora eu via os Cânions dos Índios Coroados no horizonte, suas paredes com rochas expostas como cicatrizes na paisagem. Aquela estrada de pedras soltas e terra recém-revolvida (obra de máquinas que não vi, mas senti) me fez pensar em como somos frágeis e persistentes ao mesmo tempo. Pequenos demais para importar, mas teimosos o suficiente para continuar. Nesse caminho, um pedaço de uma cobra que acredito que seja uma cobra d'água, parecia um aviso: nem tudo que rasteja chega inteiro ao destino.

Eu estava quebrado, enfrentando uma estrada de terra solta que engolia minhas rodas, a fadiga mental pesava mais que o cansaço físico. Fazia meses que não pedalava assim. Após passar a entrada do Cânion Itambezinho, avistei uma pequena lanchonete em um lugar lindo, pedi um café e algo gorduroso e calórico para comer, aproveitei para relaxar as pernas, usar o wifi e falar com a família. Mente desanuviada da realidade atual, usei o banheiro e segui o rumo. Já me sentia perto de Cambará do Sul, mais chácaras, mais carros passando e a estrada já estava melhor, o pedal rendia um pouco mais.


Placa do Aparados da Serra

Café

Era final da tarde e chegava em Cambará do Sul, não daria para eu continuar neste dia. Cheguei na cidade e parei na frente de um espaço que era "algo do turista", estava pensando em dormir por ali, mas uma viatura começou a circular com frequência, então resolvi buscar um hotel barato. Logo em frente de onde estava, havia um hotel, onde dormi. A estadia incluía café da manhã e o local era bem organizado, aproveitei para tomar um banho quente, tirar um pouco as roupas sintéticas e fui atrás de um cachorro-quente bem completo...hahaha...a fome me pegou.

Havia sido um dia de vento gelado, mas muito sol, não estava frio, estava agradável. Ainda assim, o desgaste do dia anterior havia cobrado seu preço. Foram apenas 25 km naquele dia, mas eles se estenderam por horas. Quando estamos na estrada, expostos às intempéries, o vento que corta, o desnível que exige mais do corpo, a solidão que amplia os pensamentos, somos forçados a lidar conosco. Ali, não há curtidas, comentários ou seguidores. Cada subida é um espelho e fazer paradas, uma escolha. A experiência vai além da distância ou da resistência física. Não se trata de colecionar números ou validar o ego. É sobre presença, é a construção de algo interno, invisível aos olhos, mas concreto na alma. Estar ali, vulnerável ao mundo e ainda assim seguindo, é lembrar que há força também na delicadeza de continuar, mesmo que devagar.


Já deixou algo importante para trás em uma viagem?



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